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À
SOMBRA DE UM DEUS BRACARENSE
Braga não
gerou apenas a lenda Mão Morta. Dezenas de músicos contribuem para a
manutenção da saúde estética da cidade
Manchester deixou de constar na geografia sonora
do melómano após a falência estética do eixo urbano-depressivo dos
inícios de 80 e da euforia fármaco-sorridente do fim do mesmo decénio?
Bristol não vai recuperar o estatuto que o pioneirismo, a
contra-cultura e o brilho de, respectivamente, Wild Bunch, Pop Group e
Massive Attack ofereceram ao Mundo durante os últimos 20 anos?
Detroit só é recordada por abrigar os MC5 e os Stooges (fins dos 60,
aurora dos 70) e definir os princípios do tecno, na alvorada da década
de 80?
E Braga? Só deu os Mão Morta e duas compilações exemplificativas
da vontade de uns espontâneos em fazer música, já lá vão 13 anos?
Não, não, não e "não". As aspas na derradeira negativa
lançam Miguel Pedro para a defesa da vitalidade de uma
"cena" de que é, actualmente, a face.
Acima de tudo, interesse...
O eterno faz-tudo da mais emblemática, e esteticamente
consequente, banda surgida em Braga além de baterista, produz, compõe
e protagoniza esporádicas aparições na guitarra, piano e baixo não
tem pejo algum em afirmar que "sempre existiram muitos grupos a
tocar, a ensaiar, empenhados em mostrar a sua arte".
Pelos vistos, a principal lacuna em relação aos "jovens
turcos" de 1988 é a sistematização do movimento, ou seja, não
fica documentada a globalidade dos esforços de todos os que se movem
na invisibilidade das garagens, das salas de ensaio, dos concertos em
péssimas condições, ainda por cima, muitas vezes, perante um público
olimpicamente constituído por... oxigénio.
A hipótese de o problema residir na ausência de um apoio análogo ao
protagonizado pela Câmara Municipal na publicação das colectâneas
"À Sombra de Deus" (ler peça à parte) é posta de parte
por Miguel Pedro. "Hoje, já não é absolutamente imprescindível
auxílios desse cariz". A existência de editoras de menores
dimensões e "meios mais fáceis e acessíveis de fazer circular
a informação" potenciam essa relativa autonomia de quem se
inicia nas lides.
Acima de tudo, o importante "é haver pessoas que se interessem
pelos novos projectos, que os orientem". Neste capítulo, o
ex-Bateau Lavoir assume a função. Além de estar a produzir o álbum
de estreia dos Big Fat Mamma previsível lançamento no princípio de
2002, pela Universal, vai tocar bateria com Sandy, escocês radicado
em Braga, enquanto este recruta e solidifica a formação que o vai
acompanhar.
Não é o paraíso
Por consequência, se não é pela falta de matéria humana que
Braga não volta a ser sinónimo de pujança criativa, porque é que o
resto do país ainda não pode usufruir do talento dos potenciais
sucessores dos Mão Morta?
Essencialmente, são três as razões: "Falta de
infra-estruturas, défice de promotores de espectáculos e a reduzida
amplitude do mercado", enumera o interlocutor (e cicerone pela
presente paisagem musical bracarense) do JN.
"Não se constroem estúdios porque não há mercado para os
sustentar", o que radica na implantação de um círculo vicioso.
Por outro lado, "a inexistência de um circuito local e regular
de concertos e actividades afins complica enormemente o processo de
exposição das novas bandas".
Um disco, oito destinos
O primeiro esforço de captação da arte de um conjunto de bandas
bracarenses consubstanciou-se na compilação "À sombra de
Deus" (Braga 88), publicada em 1989. Nela participaram Rongwrong,
Pai Melga, Orfeu Rebelde, Os Gnomos, Bateau Lavoir, Baile de
Baden-Baden, Rua do Gin e Mão Morta.
Logística e financeiramente apoiado pela Câmara Municipal de Braga,
o disco foi o corolário do especial empenhamento de Adolfo Luxúria
Canibal, o emblemático vocalista dos Mão Morta, e de Alberto Borges,
dos Rongwrong.
Num pseudo-exercício de retórica saudosista, averigue-se o que 13
anos fizeram aos heróis de 1988. Ainda a palavra a Miguel Pedro.
"Os Rongwrong acabaram, mantendo-se apenas ligados à música
Manuel Leite e a cantora, Teota, com a qual é casado. O que gravam
fica para consumo próprio. Actualmente, ele é produtor de vídeo".
Quanto aos Pai Melga e aos Orfeu Rebelde, "pura e simplesmente,
abandonaram a actividade musical".
O ex-baixista de Os Gnomos, Nuno Pita, "é, agora, baterista dos
Spank The Monkey. Os restantes elementos deixaram as lides
musicais".
Miguel Pedro era o baterista dos Bateau Lavoir na compilação, além
destes, representou os Mão Morta, dos quais apenas o seu irmão e
Bula permanecem no meio. O primeiro ligado à música tradicional
galega, o segundo como técnico.
Os Baile de Baden-Baden e os Rua do Gin tinham a particularidade de
terem nas suas fileiras Paulo Trindade, o qual tem nos Seis Graus de
Separação a sua mais recente aventura.
"Primavera de destroços" é, para já, a última etapa de
um dos mais estimulantes grupos nacionais. Os Mão Morta editam álbuns
há 13 anos. Pela frescura sónica do último, parece que aguentam
outros tantos.
Anos depois, a Câmara patrocinou o segundo volume, desta feita
organizado por Miguel Pedro. O disco conheceu, inclusive, distribuição
pela BMG.
Continuidade, aluga-se....
Costumas parar por aqui?
Deslize No princípio era....o Deslize. O bar presenciou o
nascimento do fenómeno Mão Morta e abrigou aliás, continua a fazê-lo
quase todos os que ousaram pegar em instrumentos e dar largas à alma.
Ainda hoje continua a enfrentar problemas com a vizinhança,
remontando o último concerto à noite, sem engulhos, ao São João.
Sintomático.
Brasileira Ponto de encontro de muitos dos músicos
bracarenses. Cinco minutos chegam para ver desfilar antigos, actuais e
futuros estetas do mapa sonoro da mais importante cidade minhota. De
resto, à decoração junte-se um muito "cool" ambiente
multi-etário e heterogéneo.
InsÓlito Outro poiso frequente da comunidade musical da cidade dos
padres, arcebispos e demais hierarquias religiosas.
Pacatos Promove espectáculos quase todos os fins-de-semana.
Consequentemente, detém uma forte função divulgadora dos mais
recentes sons paridos em Braga.
Flauta Hamelin Centro de Ensino Musical de Braga Manuel Beleza
dirige um alfobre de candidatos a "famosos". Duas vertentes
de ensino erudita/clássica e rock/jazz têm lançado para a atmosfera
um perfume de renovação.
Salão Mozart Escola e loja de instrumentos, sob a
responsabilidade de Vítor Vaz, algumas vezes funciona como
pronto-socorro, através do empréstimo de material.
Emanuel Carneiro / JN
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